Camisa de listras roxas

Chego com as compras do super mercado. Olha-me com paciência, a pressa se apoderou de mim, logo tenho que partir de novo para o trabalho. Ficou em casa o dia todo, cuidando das crianças e escrevendo. Levanta-se, me ajuda com as compra. Pergunta do dia. Não tenho tempo e nem disposição para responder agora. Digo-lhe isso. Olha-me demoradamente com um pouco de frieza. Essa é minha frieza, só se faz de espelho, quando eu digo ou faço algo do tipo.

Diz que me ama. Agora, não posso sentir amor. Por isso dou-lhe um beijo carinhoso. E saio correndo.

De noite, chego. As crianças já estão dormindo. Olha-me com desejo. Tomo um banho quente, demorado. 
Ligo o computador. Olha-me de novo. Senta-se ao meu lado e me acaricia sob a roupa leve. Primeiro nas costas, descendo a mão vagarosamente, despretenciosamente pelas minhas coxas. Fico com tesão. Olha-me. E nos deitamos...

Sete da manhã o despertador grita na minha cabeça. Que horror de vida. Saio correndo, visto minha camisa de listras roxas e saio para o trabalho.

Gostos

Venho desse tempo tão vasto.
Infinitamente desnudo de propostas e
Porteiras.

Venho desse tempo imundo de humanidades
Avacalhantes.

Vivo do lado desumano
Selvagerias descontinuadas.

Mas, me vens assim de lugares parecidos
Com os meus.
Dividir cama e odores matinais comigo.
Depois nuances, olhos, meias, comidas.

Intuo as tuas porções que me insinuam por dentro
Tomando conta dos meus espaços.
Calo-me em confissões
Expansivas.
Destronada de temores e feita
Um pouco tua, um pouco dada do mundo para
Tua boca e pele sempre ávida.

Meio vazio

Olham todos para o mesmo lugar.
Não podem mudar de rumo.
Está traçado o destino.
Serão bravos lutadores.
Bravos guerreiros.
Bravos e dignos de aplausos condencendentes
A todo malabarismo barato que fazem em
Pequenas tramas internas.

Estão todos aprisioneiros
Dos seus malogrados objetivos.
São como jumentos com freios carregando
Pianos e balaios.

Entrada de palco

Somos estradas às vezes
Sinuosas ou largas avenidas
Às vezes de terra, outras rodovias.
Secas ou elamiadas.

Às vezes curtas,
Por vezes infinitas em nossas extensões.

Somos estradas ora desérticas,
Ora feitas de multidões aparvalhadas.
Ora com estalagens e aconchegantes motéis,
Algumas apenas estradas.

Somos estradas para outros que
Passam, às vezes rápido demais
Para que nos demos conta.
Ou vagarosamente para que nos deixem
Marcas, passos e lembranças para guardar
Debaixo do colchão.

Somos todos passeios de primavera.
Cálido como mãos infantis.

Ser estrada é como ser gente.

Insistência

Cada passo ressoa.
Uma memória em cada esquina,
Das casas, gostos e deleites.

Cada ser intui onde está.
Olhando á maneira insone
Para um mundo que insiste em dormir.

Cada dia passa.
Alternando-se em velhos e novos.
Sentados na beirada do mirante.

Mas as retinas fotografam.
As imagens perduram.
Destronadas as nossas angustias,
Partem.
Colocando no lugar interno,
Um pouco de sal e pimenta.

Crueldade

Duvida cruel:
Nos construímos
Ou
Nos construíram?
Ou nada disso?
Sou meio torta,
Um pouco fora de rota.
Estrondosa como baterias
Ora desafinada, ora afinada.
Sou de sinfonias,
Toco piano.
Carrego piano
E sei reger orquestra.
Mas não me importo,
Não sou mais nem menos
Valorosa perante o mundo.
Sou de cavernas e
Labirinto interno. Escadas e
Portas. Quatro dimensões ou
Mais por dentro.

Só quero agora,
Separar os caminhos,
Traçar rotas de fuga,
Caminhar ao lado
Numa madrugada fresca
E longa, longinqua.