Estrada

(Sobre o enigma de ser gente num mundo.)

Sou de estradas,
Na mesma proporção que sou de
Estadas.

Em opostos,
Ou crio casa, filhos, medos...
Ao pé do fogão a lenha.
Ou pego mochila e cabeça
E vou indo.

Junto, sei que sempre terei
O lugar para onde voltar,
Meu lar de nascença,
Guardado no peito da noite,
Sempre no breu,
Sempre no raiar do sol levantando
As neblinas da madrugada.

Mas os pés são esses que fitam
A poeira da estrada e desejam o caminhar
Caminhando-se.

Sou de partidas e chegadas.
Pares estando juntos no peito.

Mas a constância, ah essa constância,
Sou de intensidade e mulher-formiga
Carregadora de segredos, minúcias, mudanças,
Amores, dores, angústias, felicidades, tonteamentos,
Atordoamentos, explosões, implosões...

Minhas liberdades me libertam
E me aprisionam,
Sou mais selvagem do que gente,
Mais gente do que gente,
Mais voz do que viola.


Impressões

Hoje fui ao cemitério. Eu sempre gostei de ir a cemitérios. Eles representam um lugar calmo e silencioso em meio ao caos das cidades. Seja pelo pequeno número de pessoas que lá vão, seja pelo respeito involuntário que faz com que as proximidades fiquem quietas a maior parte do tempo. Sempre foi como entrar em outro mundo. A maioria das vezes que fui a cemitérios, todas exceto por ocasião de enterros, eu estava em meus passeios de final de tarde de bicicleta. Antes eu apenas passava por lá, depois que meu avô materno morreu passei a procurá-lo por entre as lápides. Nem sempre achava seu túmulo. Penso que ele se escondia de mim quando achava que eu ia importuná-lo com minhas reflexões a cerca da vida e apesar da paciência de pescador que foi, imagino que tinha dias que gostava da solidão e da quietude. Confesso que aquelas milhares de plaquinhas com nome de estranhos também não me ajudavam.


Com o tempo ao observar as raras pessoas que encontrava por acaso no cemitério criei uma teoria. As pessoas estavam sempre com expressões de reverência como se fosse encontrar com seus santos milagreiros e em geral eram idosas mulheres. Se encontrei durante os meus passeios no cemitério 3 ou 4 homens, foi muito. Sempre encontrei os homens idosos na porta de suas casas sozinhos, olhando o movimento com olhos de ânsia, tinha a impressão que estavam esperando que alguém parasse para que eles contassem suas façanhas da juventude e perguntassem sobre o mundo. Nunca parei. Sempre acenei a eles com sorrisos e balançadas de cabeça, como nos velhos tempos. Aos domingos á tarde, sejam nos cemitérios ou nas calçadas, senhores e senhoras tomam conta de tudo. A velhice solitária deve ser um eterno domingo à tarde sem chuva, quente e invariavelmente parado e melancólico.

Mas vamos à teoria dos cemitérios: nos cemitérios todos são santos. Não importa o quão ruim se foi em vida a morte, para quem a teme, torna os piores homens santos, com seus túmulos gravados e ossos sob a terra. Penso que até mesmo monstros da humanidade seriam tratados como santos se lhes mudassem o nome da plaqueta. Que importa se seus nomes não fossem santificados seus ossos continuariam sendo. Os cemitérios são uma tentativa de não esquecimento. Uma forma de ser eterno aqui na terra. Mesmo para estranhos, como eu que passam por lá a procura de outras respostas, que não suas vidas. A pedra, os ossos e as plaquetas comprovam que houve a existência daquela pessoa. Eu mesma sempre lia vários nomes de gente que morreu há décadas, eram eternas para mim com seus ossos sob meus pés.

Decidi, há algum tempo que não quero ser enterrada, não quero plaqueta, nem pedra sobre mim. Quero ser queimada e que minhas cinzas, que não passarão de cinzas, sejam jogadas em qualquer lugar. Não quero um monumento sob meu nome. Se um dia e só se um dia eu for lembrada não quero que seja pela pedra moldada pelo homem, que seja pela pedra selvagem que se lembrará de mim porque um dia eu estive lá subindo montanhas e atravessando rios. Se um dia eu for lembrada nessa terra quero que seja pela sensibilidade, pela poesia que eu tanto amo. Não preciso nem de livros em meu nome, que sejam apenas livros. Aprendi e pretendo aprender cada vez mais que sou ínfima diante da grandiosidade e que ser ínfima não é ruim, ser parte do todo é como ser o todo e, portanto não se deve temer o esquecimento. Deve-se temer a mediocridade, o medo do medo (porque temer é humano), os preconceitos, a incapacidade de morrer quando há necessidade, a imobilidade, o cativeiro que às vezes nos colocamos por medo da dor e da decepção, o desamor, o apego, a rigidez e o endurecimento...

Sentir-se livre às 4 horas da tarde com o vento batendo no rosto, é como ser Deus. Descobri uma paixão e como todas as minhas paixões imagino que essa vá durar pela vida inteira. É o mesmo sentimento de quando pego papel e caneta e posso divagar em minhas próprias idéias de liberdade, de beleza, da condição de ser humano, de qualquer coisa que me venha à mente sob uma visão nova e posso colorir o mundo com as cores que me apetecem, com cores de vento, sol, fogo, cores com gosto de chuva e vida e pequenas plantas que nascem nas florestas. Esse mesmo prazer eu descobri em subir montanhas e caminhar... ”A estrada é um lugar perigoso, você bota seus pés nela e não sabe onde eles podem chegar.” É a liberdade, de se sentir parte de tudo e perceber que mesmo sendo pequeno perante a grandiosidade da natureza e do tempo você é grande. Muito grande... Infinito. Quem sobe montanhas nunca mais é o mesmo, não é possível ser a mesma pessoa,é como uma revelação, tudo que se pensa ser some, é um dos raros momentos em que se pode ampliar a vida e sentir que existir é simplesmente bom, é ter certeza que é preciso essa liberdade muito mais do que das nossas velhas convenções...

Se perguntar palavras que poderia dar de conselho a uma pessoa são: suba uma montanha, sente-se na frente do mar para ver o sol raiar e o sol se por, pelo uma vez pare se enganar que esta se escutando e se escute e quando achar que as coisas estão difíceis e que aquele ponto é seu último, feche os olhos respire fundo e lembre-se do vento e da sensação de estar lá no topo depois de horas de caminhada. Liberte-se.

Mira A. Diniz

27/07/08

Elogio ao tempo

Há tempos não
Podia sentir tão desregradamente.
Tão livre o frio da espinha.

Há tempos não me era
Permitido esse longo mergulho
No mar.
Fundindo-me como se fosse
Feita do azul que fica no horizonte.

Há tempos não sentia o céu,
Meu teto mais preciso,
E no calor um lugar bom de se encontrar.

Há tempos o mundo não
Presenteava, não tornava
Quase que orgânica essa coisa
De sentir-se no outro que se sente em mim.

Há tempos a queda não era tão longa,
E o flutuar tão leve.
E as palavras tão precisas.

Há tempos...
Por isso, faço aqui um agradecimento
Público ao tempo em que estou contida.
Agradeço aos caminhos de agora e aos caminhos
Futuros, mesmo que se distanciem,
Terão neles esse paladar contido no
Gosto do amanhã.

Sal da idade

É essa coisa que sente meio dormente,
Um pouco atordoada.
E o peito salgado aperta
O ar indo e vindo.
Vindo com calma e
Indo suspirado.

A largas braçadas
Vamos nadando da praia
Para mar aberto.
Começas nos pés e vai subindo...

Enquanto tivermos braços,
Vai bem.
Depois, é só perigo de se
Afogar...

Encolhidos no colo do mar,
Cheio de Sal da idade
É provável que haja só sono,
Memória e um pouco
De vaidade.

Em boa hora

Olhei nos olhos de uma criança esses dias, coisa perigosa a se fazer. As criança ainda carregam olhos sem dissimulação desse mundo de destroços para muitos. Ela estava tentando vender panos de prato para os ocupantes das mesas de um bar, um bar em que a conta não vai dar menos que cem reais.
Primeiro, olhei os gesto pequenos, envergonhados, atordoados, era uma menina, seu rosto estava sujo e os cabelos desgranhados. Depois, olhei o saco cheio de panos de prato e juro que quis abaixar a cabeça e fechar os olhos. Mas, como posso me acovardar diante de tamanha crueldade. Então, olhei os olhos e sorri. Um sorriso triste, talvez não devesse ter sorrido, parece-me agora inoportuno e desumano. Deveria ter abraço seu pequeno corpo. Por fim acho que me acovardei, fazendo daquele sorriso uma pequena catarse, sim! agora fiz minha parte, que parte? Que tristeza. E sensação de impotência perante esse mundo. E assim aqui escrevendo essa tristeza, penso em quão estúpida ela pode ser, se eu me sinto impotente imagina aquela criança, o que ela sente e apaga...
Daí ouvi uma daquelas excelentes considerações do senso comum, de um ocupante da mesa, vestido com um terno barato, um sapato caro e carregando um celular de ultima geração: o pai que faz isso deveria ser preso! BRILHANTE! Pobreza nesse país é mesmo caso de polícia. E nós? Aqui com nossas vida pequeno burguesas. Da vontade de sentar na mesa e dizer: olha meu filho, é cruel, esse pai realmente deveria ser educado, visto como uma pessoas, deveria não reproduzis o ciclo de crueldades, mas me diz qual é a condição objetiva que essa criatura tem? Você já não teve o que comer um dia? Você foi sistematicamente humilhado durante a vida toda em razão da sua classe ou cor ou vestimentas?.... Um discurso, mas só um discurso. É fácil sentir esse tipo de revolta, devotar a ira para aquele homem medíocre como somos em geral. É fácil também fechar os olhos para essa menina. E outras meninas e outros meninos e outros homens e outras mulheres... É fácil! Mas olhá-los e fazer da tristeza, desse sentimento de mundo drumondiano, uma espécie de catarse também é fácil. Olha, quando digo, não quero desrespeitar a subjetividade de ninguém, sinceramente, as vezes mesmo com esse sentimento não somo aptos a fazer alguma coisa, mudar alguma coisa no mundo externo. Tenho usado essa metáfora repetidamente em conversas com amigos e agora escrevo. Tomei o comprimido vermelho, quem me dera ter tomado o azul... Agora é isso, essa sensação, esse eterno e irremediável doer, diante da racionalidade moderna, diante do mundo, diante de mim mesma, diante de tantos inumeráveis absurdos congénitos, que nasceram com essa merda de concepção de Estado, Economia, Sociedade, Subjetividade...Blá blá blá...
E as vezes, muitas vezes, dá uma vontade de desaparecer, uma vontade de desligar por 5 minutos, 5 míseros minutos da consciência de sabe vivo nesse mundo. E as vezes, várias vezes, dá uma angústia sem tamanho, imaginar o futuro, fazer planos sejam quais forem. E as vezes, dá vontade de largar tudo e se jogar na vida sem nada. Sem todas essas coisas, objetos, sem nada...
Mas daí, eu penso qual o meu direito real de fazer isso? E o sentimento de responsabilidade para com o mundo me vem e penso que só tenho o direito real de ser feliz com as minhas dores, veja bem, como se esconder atrás delas, se vemos e sentimos somos responsavéis, não mudaremos o mundo, mas podemos ao menos tentar e sem grandes planos mirabolantes ou gigantescos, um passo de cada vez no cotidiano. Sem virar as costas... Aceita os pesares, como diz uma sábia amiga, cada um tem a caçamba do caminhão do tamanho que aguenta. Desabafo. Porque acabei de me lembrar da menina, quando via um vídeo de violência policial, social....
Se meus pés são esses, aceito-os e caminho com eles e aconselho que façam o mesmo, os que tomaram a pílula vermelha. Ser feliz é um dom raro e eu garanto queridas e queridos ele vem junto na pílula com as tormentas e olhos doidos e doídos...

Aos que tem fome

Antes de mais nada ouvirão dizer
Que se acalmem ele vem logo, logo
Para alimentá-los.

Depois, de algum tempo perguntarão
De que é a fome que tem vocês?

Vocês responderão:
De comida, mas não só, de
Luz e música,
De encenações em palcos,
De danças da meia-noite.

Eles anotarão tudo, indiferentes ao conteúdo,
E dirão, logo logo viremos alimentá-los.

E alguns meses, voltarão:
Com cavalarias e tropas.

E dirão quase que gritando,
Que vocês devem deixar esse pedaço de chão.

Vocês se levantarão atordoados.

Pensando na ruindade do homem.
Suas casas serão derrubadas,
Seus filhos machucados,
Suas infimas e desejosas
Crenças em um futuro
Distante, creio que se irão.

Soluços

(Prece feita por duas criaturas que estão no escuro)

Não te desesperes.
Por que não?
Tudo está seco, eu sei. Mas tudo pode ser
Úmido. Toca meu ventre, vês?
Está úmido de ti.
Se houver vida é morte, se não houver, é nada.
De que adianta? Passa!
Olha, não posso te dar vida, posso dizer que
Sei transitar entre a vida maravilhada e a morte mais profunda.
Se queres vem comigo, porque sou de partida.
Não há luz.
Quem precisa dela?
Não há caminhos.
Trouxemos os nossos pés.
Não há...
Shihhh....