Olho o espelho.
Quieto, sempre quieto,
Mesmo quando falo a imagem nele
Não me fala de volta,
É muda.
Mesmo quando sinto,
Ele não sente de volta.
Solidão deve ser isso:
Olhar num espelho e esperar que ele
Te olhe também.
Nostalgia Gratuita
Não sei, esses dias tenho tido essa saudade doída de tempos passados. Não é uma negação do presente ou do futuro, é uma espécie de reconhecimento como se revisse os dias e noites passados, os amores, os amigos que se perderam nas bifurcações da estrada e aqueles seres que se encontram novamente ao meu lado para podermos sentar e lembrar, juntos, rindo da vida como ela era, rindo da vida como ela é, planejando, por fim, novos futuros, diferentes dos planejados anteriormente. Tanto que pode ser dito, desdito, redito e essa coisa no peito. Que na mesma medida que preenche, esvazia o peito. Porque nostalgia e saudade não tem razão de ser racionalmente, se aproximam muito do amor nesse sentido. Alegrias, tristezas, raivas parecem, a princípio mais localizáveis por dentro. Mas saudade... Conheço a causa: a ausência física. Tenho saudade daquilo que não posso ver nem tocar agora, a não ser com a memória, sempre duvidosa. É isso. Mas daí, olho o mundo ao lado, continua, em termos, o mesmo! Podemos criar novos espaços, mesmo que seja difícil e uma batalha constante. Podemos esperar, planejar, construir, transformar... mas nada disso, aplaca essa coisa no peito, que chamamos saudade. Um jeito luso de dizer o que sentimos. I miss you, não é necessariamente um vocábulo, mas exprime algo, acho até bonito, mas saudade (Ah!), essa parece que vai fundo e revolta por dentro e saí assim na forma de longos suspiros. O mais estranho, que sinto em relação a memória que causa saudade, é que quando lembramos, é como se todo o tempo que vivemos coubesse dentro do peito. Mas, o tempo em que vivemos o passado lá ficou quieto e nunca poderemos estar de novo. O que vai e volta é a memória e nada mais. Não sei parece óbvio, mas é algo assustador, para mim, pensar que o tempo que vivi (que já é muito mais do que consigo conceber racionalmente), cabe dentro do agora, através de uma imagem saudosa ou de um cheiro guardado nas roupas, nos lençóis e por incrível que pareça na memória. Já esteve com tanta saudade de alguém que sentiu o cheiro da pessoa ou de uma situação no ar como uma materialização do que sentimos? Alguns dirão sobre o espaço, o infinito, a metafisica, a religião, os vários caminhos cerebrais possíveis, mas isso não explica compreende? Não explica da maneira como estamos condicionados a receber explicações... entende? Acho que estou sendo confusa e óbvia. A obviedade sempre me causou espanto, mas pode ser que se perca a poesia e o porque de escrever quando se escreve sobre o óbvio.
Enfim, estou com essa sensação de nostalgia, saudade gratuita, ao mesmo tempo não desejo voltar no tempo, fazer firula, gosto do tempo que vivo, gosto do meu agora pessoas, não idolátro o passado, só me deixa extremamente curiosa a forma como pensamos memórias e o reconstruímos, concomitantemente com fato de que o transformamos em agora, o agora saudade!
Racionalmente poderia deixar para lá, não me preocupar, mas o absurdo dessa coisa toda me bate na cara e quando olho uma foto de quando eu tinha, sei lá 4 meses de idade, sorrindo com os mesmo olhos. Me pergunto onde foi que estou diferente, se o sorriso e os olhos são os mesmo... chego a conclusão que o tempo que passou, vive por dentro, mas como se estamos condicionados a separar, classificar... como?
Voz baixa
Minha voz está baixa,
Quase inaudível,
Quando te falo ao pé do ouvido.
Minha voz sussurra,
Se mais alta não caberia.
Seus ouvidos não comportariam.
Minha voz cala,
Quando decido dizer com o
Corpo, o quanto te desejo.
Ah, essa minha voz, se procura por dentro
E vem.
Quase inaudível,
Quando te falo ao pé do ouvido.
Minha voz sussurra,
Se mais alta não caberia.
Seus ouvidos não comportariam.
Minha voz cala,
Quando decido dizer com o
Corpo, o quanto te desejo.
Ah, essa minha voz, se procura por dentro
E vem.
Planícies
Quando tinha uns 14 anos, no meio de uma das minhas crises relacionadas ao fato de que eu existo. Minha mãe, me disse, algo mais ou menos assim, já que da memória se deve duvidar: Olha filha, nessa fase da vida você tem muitos horizontes abertos, muitas portas, muitas pessoas, mas saiba que um dia isso acaba e o que fica são as vivências, então aproveite essas portas e janelas e viva, para de sofrer.
Eu fiquei maluca com aquilo, na época tinha um diário, e escrevi em cada página, num misto de revolta e temor dos abismos da vida: Não fechar os horizontes nunca. 365 vezes eu escrevi.
Hoje, vejo que essa tarefa eu cumpri. Meus horizontes estão abertos e as possibilidades de vida continuam tão inimaginavelmente grandes e belas. Fixei meus olhos no horizonte, longe, fundo, intransponível. O que me esqueci, creio que minha mãe se esqueceu, na época, também. Foram dos pés.
Os pés criam raízes sem nos consultar e se não prestamos atenção neles, é perigoso que estejamos presos em pouco tempo. Não falo do solo exterior a própria consciência, mas de outro solo aquele sobre qual nos construímos internamente. Como um pedaço de solo que carregamos conosco, não sei se viram, no filme Love and Death do Woody Allen, o pai do personagem principal, Boris, carrega um pedaço de terra que ele diz ser a terra dele. É realmente um quadrado de terra com grama sobre ele.
Acho que o solo sobre qual nos fundamos é um pouco mais extenso, penso numa planície, mas pode ser um morro, uma montanha, a beira-mar tanto faz em realidade como nos enxergamos por dentro nesse sentido. Os nossos pés fincam raízes em nós. São extremamente ardilosos, nos iludem com a sensação de mudança, iludem nosso coração de ânsias e desejos com falsos passos. É difícil perceber quando é real, quando é miragem. O fato é que eu, porque aqui falo de mim, fique lá, fixa no horizonte, me esqueci dos pés e hoje me dei conta de quão fincados eles estão em mim. Fincados nos velhos sonhos, fincados na ilusão da constância, fincados na luminosidade do encanto de encontros. Meu corpo, minhas percepções vagueiam pelo mundo, encontro a quem amar e pessoas que me amam, posso estar amanhã no Alaska. Mas há algo que aprisiona, porque, afinal, não fugimos de nós mesmo. Estamos estacados em nossas raízes, em nossas planícies, em nossas histórias e acima de tudo nessa nossa ciência de existir, de saber ser vivente, fixados em nosso tempo, com as percepções tão pequeno burguesas que nos rodeiam, ou melhor que me rodeiam (nem todos estão rodeado dela). De alguma forma não consigo deixar de pensar que essa é uma tristeza que nem todos podem sentir, é uma tristeza de classe. Por outro lado, creio que tristeza seja simplesmente tristeza, é a mesma tristeza, a percepção e reação de nosso pés é que é outra.
Ao fim, vá chega de fim (mesmo que não considere uma má idéia acabar, é inevitável, enquanto ser existente sou extremamente grata, mas não vejo problema no fim), ao começo, como ia dizendo, somos nossos pés. São eles que nos levam para cima e para baixo, são eles que nos colocam no mundo. São eles que criam a concretude, já que é com eles que damos os passos. Esse é o problema de se manter fincado nas terras de dentro, se ficamos sempre no mesmo lugar de nós mesmo, como nos enxegar de outra forma que não essa a que nos habituamos e nos é familiar, como olhar para você de outros ângulos, de outras perspectivas, de outras fontes mesmo que sejam outras ilusões.
O problemas das raízes fixadoras é que elas não crescem dos pés elas vem do chão, e se infiltram na sola dos pés, eles permitem, cansam-se dos passos e caminhos. Assim, sem delongas, para dar o próximo passo é preciso cortar a sola dos pés. E sangrar (dramático não?), sair andando em si mesmo, pode ser um caminho sem volta, todos somos labirintos.
Por um tempo haverá rastros e se você se acovardar pode voltar e ficar no conforto de ser você, daquela maneira mesma para sempre, mas depois de algum tempo de caminhada, não há mais caminho de volta e é preciso seguir. Se acalmem, não proponho que cortemos nossas raízes, elas continuaram em nós sempre, nos acompanhando para qualquer lugar que seja, mas que cortemos a sola dos pés, para podermos caminhar por dentro, da mesma forma que caminhamos por fora. É triste que não possamos encontrarmos em nós mesmo, unicamente justificando que estamos presos a nossas crenças por vezes mortas, novas formas de ser. Talvez os homens que cortaram as solas dos pés sejam aqueles que viveram no Absurdo (de Camus), ou melhor com consciência dele, talvez, não sei. Mas, se não o fizermos, meus queridos, será sempre preciso imaginar Sísifo feliz, será sempre preciso que nos imaginemos felizes em nossa pequenas mediocridades e grandezas forjadas diárias. É um caminho, sem dúvida, só não é o caminho que quero para mim. Até logo menos, meus amados, meus não amados. Vou buscar a tesoura de poda!
Aos loucos
Saibam, todos vocês que de louco nada tem
O álcool, os alucinógenos, os relaxantes, os acelerantes.
Nada tem em si de loucos.
A filosofia, as artes, as canções nada tem em
Si de loucos.
De que adianta, queridos, anjos decaídos
Se a música é boa, mas o ouvido ruim,
Se o álcool é de qualidade, mas o estômago ruim,
Se as artes são as melhores, se os olhos procuram por algo específico,
Como um cavalo com freio.
De que adianta se dizer louco, liberto,
Se a moral mora, na casa de dentro,
Se a liberdade do outro é castrada todo dia,
Mesmo sem querer, sem querer é desculpa de criança ranheta,
Mal criada diriam os antigos.
Quero um novo termo, para dizer o que penso,
Uma nova palavra, poderia ser,
Libertouco, ou
Loucatário, ou
Não sei.
Só sei que, é preciso reinventar o louco.
Um pouco, assim, mais despretensioso.
Que saiba ter em si, uma loucura que não aprisiona,
Que nos torna melhores,
Que traz consigo as melhores coisas, as melhores
Possiveis consequências.
Nada de dizer que ama e deprimir o outro,
Nada de fazer, dizer que pode e reprimir o outro,
Nada de estar aqui, e ali e dizer a si mesmo que
Estamos fadados ao fracasso dessa maneira.
Nada de loucuras que não sejam libertação.
(Desabafo não muito poético, eu diria, sobre a mediocridade que nos assola, em que tudo se torna fim para o próprio prazer, seja ele qual for.)
O álcool, os alucinógenos, os relaxantes, os acelerantes.
Nada tem em si de loucos.
A filosofia, as artes, as canções nada tem em
Si de loucos.
De que adianta, queridos, anjos decaídos
Se a música é boa, mas o ouvido ruim,
Se o álcool é de qualidade, mas o estômago ruim,
Se as artes são as melhores, se os olhos procuram por algo específico,
Como um cavalo com freio.
De que adianta se dizer louco, liberto,
Se a moral mora, na casa de dentro,
Se a liberdade do outro é castrada todo dia,
Mesmo sem querer, sem querer é desculpa de criança ranheta,
Mal criada diriam os antigos.
Quero um novo termo, para dizer o que penso,
Uma nova palavra, poderia ser,
Libertouco, ou
Loucatário, ou
Não sei.
Só sei que, é preciso reinventar o louco.
Um pouco, assim, mais despretensioso.
Que saiba ter em si, uma loucura que não aprisiona,
Que nos torna melhores,
Que traz consigo as melhores coisas, as melhores
Possiveis consequências.
Nada de dizer que ama e deprimir o outro,
Nada de fazer, dizer que pode e reprimir o outro,
Nada de estar aqui, e ali e dizer a si mesmo que
Estamos fadados ao fracasso dessa maneira.
Nada de loucuras que não sejam libertação.
(Desabafo não muito poético, eu diria, sobre a mediocridade que nos assola, em que tudo se torna fim para o próprio prazer, seja ele qual for.)
Eu te amo e por isso digo
Todos esses homens e mulheres
Querem pedaços de você meu amor.
Eles te veêm brilhante, radiante e doce.
Ah essa sua doçura, de selvagem aprisionada,
É um êxtase, para quem é civilizado e acredita em contos de fada.
Todos eles acreditam, no teu conto, que não é de fada
É a vida, em suas possibilidades vivida.
Estão vazios e se preenchem de você meu amor.
Aprisionam a sua doçura, a sua liberdade,
Com medo de que você se vá,
Como sei que você é de partida.
Talvez te queiram mesmo mesmo aos pedaços,
Cada com sua parte.
Mas e você meu amor?
Onde fica? Carregará até quando esses homens e mulheres?
Saiba, que minha parte de você é você inteira,
Na sua selvageria, na sua liberdade,
Seja Itália, China, Brasil, seja
Onde for, quero você inteira, não para mim,
Para você!
Não meu amor, não é de propósito ou maldade a vista,
É só, uma solidão, que creia não é sua.
Cada um carrega o que tem carregar.
E
Saiba: eu te amo.
Querem pedaços de você meu amor.
Eles te veêm brilhante, radiante e doce.
Ah essa sua doçura, de selvagem aprisionada,
É um êxtase, para quem é civilizado e acredita em contos de fada.
Todos eles acreditam, no teu conto, que não é de fada
É a vida, em suas possibilidades vivida.
Estão vazios e se preenchem de você meu amor.
Aprisionam a sua doçura, a sua liberdade,
Com medo de que você se vá,
Como sei que você é de partida.
Talvez te queiram mesmo mesmo aos pedaços,
Cada com sua parte.
Mas e você meu amor?
Onde fica? Carregará até quando esses homens e mulheres?
Saiba, que minha parte de você é você inteira,
Na sua selvageria, na sua liberdade,
Seja Itália, China, Brasil, seja
Onde for, quero você inteira, não para mim,
Para você!
Não meu amor, não é de propósito ou maldade a vista,
É só, uma solidão, que creia não é sua.
Cada um carrega o que tem carregar.
E
Saiba: eu te amo.
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