Você não obriga um gato a ficar no seu colo

Oberva-me ali, você de pele a mostra e olhos... ah os olhos são os olhos.
Boca a deriva, deixada aqui ao alcance das palavras
Saborosas aos ouvidos,
Encabuladas no caminho que vão por dentro.
Reflito-me, refugiada de guerras e com delicias a mão,
Vaidosa do tempo em que me encontro,
Ouço-te,
Toda ouvido e sensações abissais,
E quando cala, gosto de te observar me observando.

Cuidado

Sou de pactos,
Se queres pactua comigo.

Em cruz ilhada

E se todos as imagens fossem mais que
Nova poeira no horizonte, você poderia
Crer no que te digo agora? Nua, de olhos e boca entreabertos,
Ruidosa. Vaidade pura escorrendo como o tempo:
Ultimato. Você vem? Assim, sem que eu diga nada? Vem ser meu
Zênite? O ponto alto da minha estrada? Vem me
Insultar, me dizer bobagens, pura astúcia
Liquida mesmo, me transformando em transpirações
Habituais do seu desejo?
Ah, cale-se, mude-se, vai-se com o diabo, ou seduz-me
Derrotada em seus poros, pelos e gozo. E se resisto
Agarra-me, obriga-me, faz-me dócil e adormece comigo.

Dez Milhões

Claro. Se me olho no espelho por cada passo?
Os tenho por toda casa!
E nunca deixo de usá-los para
Medir o tamanho dos passos e dos
Precipicios.

Negro. Nego. Não sou de amores vãos.
Mas, não espero que o tempo passe para
Descobrir que os relógios nos mudam
Por fora e por dentro.

Penumbra. Não sou das margens em mim.
Gosto das minhas correntezas.
Do olho do furacão.
E do eterno desfazer-me.

Digo pois, sem promessas pequenas.
Sem promessas grandes.
Quando abro a porta. Não trouxe nem a chave para trancar
Você para dentro e nem para fora.

Nascer do Sol

Pelo precipício da alvorada,
Visto de um espelho quebrado,
Há uma mão sobre minha pele.
Que mesmo não conhecendo as sensações
Viaja sem medo e pudor sobre mim.
Eu?
Viajo de volta.

Selvagem

Os sucos escorreram pelas peles
Dormentes.
Os sexos ficaram avermelhados de tanto
Furor.
As bocas esfoladas dos beijos e mais beijos
Em todos os pedaços expostos ou não de pele.
Cala as palavras, que prefiro os suspiros entrecortados
E os gemidos sussurrados.

Fartos!
Estamos fartos da geleira siberiana do sexo mecânico.
Preferível que seja selvagem,
Doido de êxtases delirantes
Palpitante.

Fartos!
Dos olhos por dentro serem de pedra bruta
Dos meios de sentir só um pouco, mas não tudo
De nunca permitir que sua pele entre por baixo da minha
E minha por baixo da sua.
Temos abismos que nos dizem que isso
É se prender, ter responsabilidades.
Estamos loucos para culpar o outro
Para deixar o outro nos desejando
Para aprisionar o outro em nós mesmo
Deixando que eles nos sejam

Fartos!
Da pequenez dos dias,
Da pequenez dos medos,
Da pequenez dos sonhos
Vestido sempre pra missa de domingo,
Sempre com os olhos baixos diante da autoridade
Dos sábios que habitam as Telecomunicações.

Fartos!
Do inumano.
Do desumano.
Da desumanidade.
Do não-humano.

Desejamos, sem nuca saber o que
Sem nunca Assumir o que.
Ou quando.

Queremos que possamos entrar
Dentro de nós mesmo, botar tudo abaixo
E reconstruir com o gosto de próprio sangue e dos próprios restos
A nossa selvageria.

Mãos

Olha ali moça!
Olha!
Olha?!?
As correntes levam e aprisonam.
Nos rios dos olhos não há escapatória,
Nem salvação.
Olha ali!
Escondida entre as folhas uma criança,
Seus olhos são selvagens.
Ela destila o ódio em suas entranhas pequenas.
Olha...

Não! Tenho medo.
De esquecer, de colocar fogo na minha cabeça
De queimar as lembranças e os miolos.
A madrugada me envolve com cheiro de peixe
Podre.
E mãos não esquentam.

Mas olha li moça.
E se tiver que ir por aquele caminho?
E se tiver que engolir seco e não chorar?
E se tiver que amar de novo?
Olha.

Já amo.
E o tempo que atiçou o fogo,
Há de um dia apagá-lo.